Nada do que direi aqui é novidade, principalmente aos pesquisadores da comunicação, cibercultura e tecnologia móvel. Mas lembrando da fala de um professor de filosofia, que certa vez disse em aula que aquilo que é do cotidiano, se bem analisado, torna-se extraordinário, me fez refletir sobre o celular. Permitam-me ‘filosofar’ um pouco a cerca desta ferramenta para a qual o mundo voltou os olhos e que tomou um significado sui generis na cultura midiática.
O que diria McLuhan hoje se visse que o telefone com fio, – que ele chamou de extensão do ouvido e da voz - tornou-se sem fio, portátil e híbrido, reunindo outras mídias nele? Sim, por que é isso que está acontecendo. O celular congrega hoje jornal, rádio, televisão, música e cinema. A própria internet, até pouco tempo dona dos holofotes, rendeu-se a cultura da mobilidade via celular. Hoje, por exemplo, quando fui checar o resultado da mega-sena para minha mãe, vi na página inicial a guia ‘acesse via celular’. Outro dia lendo uma revista de TV, vi que nas primeiras páginas tinha uma caixa de texto ”Minha novela no celular”. É como, se hoje, tudo girasse em torno desse pequeno aparelho.
Se antes nós íamos atrás da informação, hoje, ela vem até nós. Todos os veículos estão criando um setor para produção de conteúdo móvel, visando alcançar o novo sujeito que está em qualquer lugar, conectado ao mundo via celular. Isto, por sua vez, me fez lembrar das palavras da Gisele Beiguelman¹ quando questiona ’se de fato rumamos para a tão alardeada convergência de mídias, ou se, ao contrário, o que se impõe é um cenário de leitura distribuída em inúmeras mídias’?. Bom, uma coisa não anula a outra. Está havendo sim a convergência e também está havendo distribuição de conteúdo em inúmeras mídias, pois as novas mídias, geralmente, incorporam a principal característica das anteriores. Nos concentremos no cinema. O cinema começou na tela grande, em salas escuras, fechadas, passou para a televisão, uma tela menor, localizada na sala. Então, veio o computador e o cinema foi parar na internet. Hoje, ele está no celular, mas sem deixar de estar nas grandes telas, na televisão e no pc. O mesmo acontece com a indústria fonográfica, com a televisão e com as agências de notícias. O celular estabelece novas linguagens, estéticas e formatos na cultura midiática, tanto nos produtos feitos para celular como nos feitos por celular e aí temos os inúmeros festivais especializados para essas produções.
Também não se pode deixar de tocar na questão do usuário que, por sua vez, usa o celular para estabeler novas formas de sociabilidade. A palavra de ordem dos espaços urbanos é mobilidade e essa tal mobilidade potencializa os conceitos tão difundidos de interatividade, cultura pariticipativa e conteúdo colaborativo. André Lemos² considera que o celular e as mídias móveis, em geral, suscitam uma nova categoria midiática: as mídias pós-massivas, pois descentralizam o pólo de emissão de conteúdo, podendo qualquer um produzir informação.
A discussão é recente e o celular ainda vai dar muito o que falar. Mas quem diria que ele causaria todo esse rebuliço? O povo da sci-fi ficou tão atrelado a um futuro tecnológico guiado por teletransporte, carros que correm na velocidade da luz, robôs quase humanos que mal pôde imaginar um futuro que fosse moldado por uma tecnologia prática que cabe no bolso.
Polyana Amorim
¹ BEIGUELMAN, Gisele. Entre hiatos e intervalos (a estética da transmissão no âmbito da cultura da mobilidade). In: Imagem (Ir)realidade: comunicação e cibermídia. Denise Araújo (org). Porto Alegre: Sulina, 2006.
²LEMOS, André. Comunicação e prátcias sociais no espaço urbano: as características dos dispositivos híbridos móveis de conexão multirredes (DHMCM). In: Revista Comunicação, Mídia e Consumo, São Paulo, v.4, n.10, p.23-40, jul 2007.